Perfeição

Como boa brasileira que sou, eu sempre sofri de uma certa crise de vira-lata.

Quando me perguntam do meu país eu esqueço do clima incrível, das praias e paisagens maravilhosas, do quanto somos um povo esforçado (porque se não correr atrás, não vira muita coisa, né minha gente), do quanto somos alegres e já vou logo falando da corrupção, da violência, da falta de infraestrutura, da falta de coletividade e até do trânsito caótico de São Paulo.

E em contrapartida você fica idealizando a Europa como um lugar muito melhor, com pessoas mais civilizadas, mais modernidade e aquela famosa frase que engloba o lifestyle dos países do primeiro mundo: “as coisas funcionam”.

Gente, longe de mim querer falar mal da Europa, ta? Eu estou gostando muito de morar aqui e quero ficar por pelo menos mais alguns anos (se conseguir um jeito de pagar as contas sem ter que ir pras vitrines do Red Light District), mas confesso que nesses 3 meses desde que cheguei, tive alguns baldes de realidade jogados direto na minha cabeça.

O primeiro deles foi que muitas pessoas não cedem seus lugares pros mais velhos no transporte público. Eu cedi algumas vezes (todas em que tive oportunidade, claro) e tive como resposta caras de espanto seguidas por milhares de agradecimentos típicos de quem não está acostumado com isso.

E recolher coco do cachorro da calçada? Não é todo mundo que recolhe não, especialmente se o cachorro fizer na grama (e eu achando que as pessoas do Campo Belo em São Paulo eram as mais mal-educadas do mundo).

Carro parar pro ciclista num dia de frio e chuva num cruzamento de preferência duvidosa não é prática muito comum. Aconteceu comigo. Hoje. Sério. E se enrolar muito pra atravessar a faixa de pedestre, corre o sério risco de ganhar cara feia.

Mas uma coisa que me chocou muito foi o racismo. Na minha sala tem dois alunos negros, ambos africanos. Nas primeiras semanas de aula uma das professoras perguntou pros alunos internacionais como estava sendo a experiência de morar na Holanda e um desses alunos disse que estava sentindo resistência das pessoas, que não ajudavam muito no supermercado e tal. Aí na minha vez eu falei que sentia o contrário, que desde que cheguei estava sendo muito bem recebida, seja por conhecidos e amigos, seja por pessoas na rua, no supermercado, na estação de trem. A professora perguntou se eu tinha ideia do motivo pra essa diferença de tratamento e eu, tentando ser sutil, falei: “provavelmente porque eu sou mulher, pareço europeia e o meu sotaque falando inglês é mais fácil de entender” e ela completou sem a menor cerimônia: “e porque você é branca”.

Gente, imagina um professor falar isso no Brasil, na frente de mais de 20 alunos! Ia pra capa do UOL em meia hora.

Transporte público é muito bom, mas caríssimo. Eu entro num trem aquecido, que quase nunca atrasa e que tem Wi-Fi e vou da cidade onde eu moro para a que eu estudo, a 20km de distância, em 12 minutos. Mas pago € 7,20 ida e volta, ou seja, quase R$ 30 por dia.

Sistema de saúde funciona? Funciona. Mas nos termos deles. Aqui todo mundo é obrigado a pagar plano de saúde, se não tiver dinheiro pra pagar, o governo te dá, e se for pego sem plano, toma multa. E mesmo com o plano, não tem essa de ficar fazendo check-up de rotina não, você só é encaminhado pra um especialista se o clínico geral achar totalmente necessário e muitas vezes eles não acham. Exemplo da vida real, eu tenho uma amiga que passou três anos com fortes dores no braço, tomando injeções e analgésicos e só agora conseguiu ser encaminhada pra cirurgia, depois de muita insistência.

Repito, é um lugar incrível e cheio de qualidades, mas está longe de ser perfeito. Lembra que quando eu cheguei, eu falei que eu e a Holanda estávamos na fase de nos conhecermos melhor? Bom, eu continuo apaixonada, mas estou conhecendo melhor os defeitos e vendo qual é a dela.

2 comentários sobre “Perfeição

  1. Cássia

    Bem por aí Gi .. Fico contente por vc estar vivenciando esta experiência incrível de morar fora do nosso país e poder ver a realidade de perto . Deus abençoe vc e aproveite ao máximo as coisas boas que a Holanda possa te oferecer. Grande abraço. Cássia 😘💕

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: O dia que o Elvis quebrou a unha (ou o “desencanamento” do sistema de saúde holandês – Subi nas Tamancas

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